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domingo, 22 de julho de 2012

MORRE UMA DAS VÍTIMAS DO FURACÃO


(continuação)

“Quando estávamos na carceragem da Polícia Federal em Brasília, e eu disse ao desembargador Ricardo Regueira que, quando morresse, eu queria ser cremado para que minhas cinzas fossem jogadas na praia, ele me retrucou, dizendo que não deixaria isso acontecer, porque queria encontrar comigo no Paraíso, e lá não entram os cremados.
O tempo passou, saímos da prisão, retomei as minhas atividades no magistério, na Faculdade Nacional de Direito e palestras pelo Brasil, recomecei a escrever, atualizando meus livros, mas para o desembargador Ricardo Regueira a vida não conseguiu voltar ao normal, porque ele já vinha de uma injusta acusação anterior – em que tinha sido acusado de vender sentença, mas cujo processo acabara arquivado pelo Supremo Tribunal Federal, com o voto do mesmo ministro Cezar Peluso, que de novo mandar prendê-lo com o argumento de integrar ele a máfia dos caça-níqueis – e a morte do seu filho, ainda jovem, que ele afirmava ter sido uma execução, e que nunca foi esclarecida pela polícia, minou toda a sua resistência e ele acabou falecendo.
Sempre que eu tinha a oportunidade de falar com ele, eu lhe dizia que tínhamos que ficar fortes, porque precisávamos sobreviver ao furacão para não morrermos como culpados, o que seria muito do agrafo da Justiça, que assim não precisaria nos julgar, mandando o nosso processo penal para o arquivo.
Para quem não sabe, quando alguém é injustamente acusado, como o desembargador Ricardo Regueira, mas morre no curso do processo, em vez de o processo prosseguir para que a família do morto possa ter a chance de vê-lo absolvido, para obter do Estado as reparações a que tem direito, o processo é arquivado, porque os tribunais entendem que com a morte a punibilidade fica extinta.”

(continua na próxima semana)
Trecho do livro OPERAÇÃO HURRICANDE: UM JUIZ NO OLHO DO FURACÃO (Geração Editorial), encontrável em www.saraiva.com.br e em Livraria LaSelva (nos aeroportos).

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